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Duas linhas paralelas em ferro, cravadas no pavimento marcam na
cidade um tempo passado. As que ainda têm o privilégio de ser
usadas valorizam a cidade com a passagem da pesada máquina
eléctrica. Contam a história da cidade, dos seus transportes,
dos percursos que eram nela percorridos. Nas “entrelinhas”
lêem-se os hábitos de habitantes desaparecidos. As linhas que ao
tempo resistiram, mas que o tempo as tornou obsoletas, contam
também histórias de necessidades passadas, de tempos que
mudaram, de uma gente que já não existe e de trajectos que são
hoje percorridos de outras formas.
Ao
som do eléctrico caminha-se junto ao rio. Os antigos carris no
pavimento ainda marcam uma relação com quem por eles passa. O
peão que os pisa e vê a água escorrer pelas suas calhas, o
ciclista que se esquiva das fendas, o condutor que evita
deslizar sobre a superfície metálica. Esta relação com os carris
existe onde o Eléctrico ainda circula ou onde com o passar do
tempo se tornou história.
Estas linhas paralelas acentuam a relação com um transporte que
valoriza culturalmente uma cidade e que procura resistir à
“erosão” da história. Elas irão ao longo desta proposta servir
de elemento de aproximação da história ao público tanto no
interior e no exterior, não com repetições óbvias, mas como
provocações ao nosso imaginário do Eléctrico através de
iluminação natural e artificial que nos lembrará da história que
aqui se quer preservar.
A
regra do paralelismo, que obriga a uma distância constante entre
duas linhas é aqui provocada para que a distância se altere
criando uma variação despertando a curiosidade do visitante. As
linhas paralelas são forte fonte de inspiração e contagiam a
intervenção proposta.
A
qualidade de um edifício não se determina pela sua longevidade.
Um edifício antigo mas vazio, morre, ele necessita de
habitantes. A sua qualidade está directamente ligada à sua
resistência ao “tempo”, o que requer evolução e adaptação. Não é
suficiente compatibilizar os antigos espaços a novos programas
ou condensar novos programas aos seus espaços como sucede a
muitos edifícios antigos. Uma eficaz resistência ao tempo requer
evolução de um edifício. Ele deve adaptar-se e crescer. Esta
adaptação está directamente ligada à versatilidade do edifício
em se adaptar a novos usos.
Para “reforçar os objectivos museológicos”, “aproximar
o Museu do Carro Eléctrico de novos públicos”
e garantir a “captação de novos negócios”, deve agora o
antigo edifício da Central Eléctrica adaptar-se a necessidades
actuais e reais para servir uma população diferente da época em
que foi projectado. Para o fazer com sucesso, deve acrescentar à
sua história, aceitando que esta nunca está parada e usar essa
nova história para garantir uma forte relação com o público
actual.
O
edifício da Central Eléctrica, desenhado para cumprir
necessidades funcionais desactivadas, não dispõe de uma entrada
que se espera num Museu, seja ele antigo ou novo. Torna-se assim
essencial criar uma entrada nobre e atractiva. É também agora
real a necessidade de facultar o parqueamento de viaturas que no
seu tempo eram raras e de garantir boas condições a quem ali
trabalha, mas acima de tudo de atrair uma população cada vez
tecnologicamente dependente e esteticamente sensível.
Os
padrões de gosto estão a alterar-se. Desde a altura em que o
edifício existente foi concebido os paradigmas alteraram-se.
Objectos bem desenhados e adaptados às necessidades
contemporâneas são cada vez mais fáceis de adquirir. Há uma
clara evolução na qualidade de desenho de automóveis, de
telemóveis, do calçado, etc., sempre respeitando a evolução das
necessidades e exigências da população. Os telefones que temos
no bolso são quase sempre peças com um desenho cuidado e
apelativo, com uma simplicidade sedutora. Também a arquitectura
deve respeitar os novos paradigmas para seduzir o visitante.
A solução que propomos ambiciona
fazê-lo de modo a garantir o sucesso dos objectivos STCP.
A
requalificação do edifício às novas necessidades foi abordada de
modo cativar novos públicos, alterando o contexto que pretende
seduzir residentes, empresas e turistas. O objectivo desta
proposta é cativar o público do séc. XXI a visitar o edifício do
início do sec. XX, garantindo que tanto o edifício como o museu
irão continuar a ter um lugar importante na história da cidade.
A história do antigo edifício da Central Eléctrica não terminou
e apresentamos aqui um novo capítulo, “escrito” para quem se
quer cativar.
Como abordagem optou-se por explorar o contraste realçando as
diferenças entre o existente e o que é recente. O contraste
entre a antiga Central Eléctrica e as novas intervenções
exteriores procuram valorizar o antigo, realçando não apenas uma
recuperação do edifício, mas uma clara evolução do mesmo. O
diálogo entre o passado e o presente do edifício transpõe para a
arquitectura a diferença dialéctica do passado austero e do
futuro onde a sensualidade e surpresa reinam. No exterior a
relação diária entre os actuais modos de transporte e os antigos
eléctricos está expressa na arquitectura. O contraste vem assim
valorizar o edifício existente, respeitando-o, mas
transportando-o para a actualidade.
Outro claro objectivo da nossa proposta é melhorar
significativamente as condições de quem trabalha ou colabora no
museu. Neste sentido, e de forma a melhorar espacialmente o
interior e as zonas de trabalho, foi necessário efectuar algumas
demolições pontuais (respeitando a fachada existente), descritas
e justificadas mais abaixo e que se concentram sobretudo na zona
da futura entrada no edifício, e na criação de um pátio exterior
que servirá as áreas de Operação e Manutenção e que permitirá
uma melhoria significativa do edifício tornando-o mais versátil
e funcional. Estas alterações também irão criar uma relação mais
forte com novos públicos e garantir que aqueles que colaboram
com o museu irão poder desfrutar de iluminação natural nos seus
locais de trabalho e explorar as excelentes vistas e orientações
de algumas zonas do edifício. Prevê-se também o acesso a
cadeiras de rodas a todas as instalações sanitárias.
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