NOW AND THEN

41º 08’51” N  08º37’59” W - REMODELAÇÃO DO MUSEU DO CARRO ELÉCTRICO - PORTO
Colaboração    

     

         

         

         
 

 

 

         

Duas linhas paralelas em ferro, cravadas no pavimento marcam na cidade um tempo passado. As que ainda têm o privilégio de ser usadas valorizam a cidade com a passagem da pesada máquina eléctrica. Contam a história da cidade, dos seus transportes, dos percursos que eram nela percorridos. Nas “entrelinhas” lêem-se os hábitos de habitantes desaparecidos. As linhas que ao tempo resistiram, mas que o tempo as tornou obsoletas, contam também histórias de necessidades passadas, de tempos que mudaram, de uma gente que já não existe e de trajectos que são hoje percorridos de outras formas.

Ao som do eléctrico caminha-se junto ao rio. Os antigos carris no pavimento ainda marcam uma relação com quem por eles passa. O peão que os pisa e vê a água escorrer pelas suas calhas, o ciclista que se esquiva das fendas, o condutor que evita deslizar sobre a superfície metálica. Esta relação com os carris existe onde o Eléctrico ainda circula ou onde com o passar do tempo se tornou história.

Estas linhas paralelas acentuam a relação com um transporte que valoriza culturalmente uma cidade e que procura resistir à “erosão” da história. Elas irão ao longo desta proposta servir de elemento de aproximação da história ao público tanto no interior e no exterior, não com repetições óbvias, mas como provocações ao nosso imaginário do Eléctrico através de iluminação natural e artificial que nos lembrará da história que aqui se quer preservar.

A regra do paralelismo, que obriga a uma distância constante entre duas linhas é aqui provocada para que a distância se altere criando uma variação despertando a curiosidade do visitante. As linhas paralelas são forte fonte de inspiração e contagiam a intervenção proposta.

A qualidade de um edifício não se determina pela sua longevidade. Um edifício antigo mas vazio, morre, ele necessita de habitantes. A sua qualidade está directamente ligada à sua resistência ao “tempo”, o que requer evolução e adaptação. Não é suficiente compatibilizar os antigos espaços a novos programas ou condensar novos programas aos seus espaços como sucede a muitos edifícios antigos. Uma eficaz resistência ao tempo requer evolução de um edifício. Ele deve adaptar-se e crescer. Esta adaptação está directamente ligada à versatilidade do edifício em se adaptar a novos usos.

Para “reforçar os objectivos museológicos”, “aproximar o Museu do Carro Eléctrico de novos públicos e garantir a “captação de novos negócios”, deve agora o antigo edifício da Central Eléctrica adaptar-se a necessidades actuais e reais para servir uma população diferente da época em que foi projectado. Para o fazer com sucesso, deve acrescentar à sua história, aceitando que esta nunca está parada e usar essa nova história para garantir uma forte relação com o público actual.

 O edifício da Central Eléctrica, desenhado para cumprir necessidades funcionais desactivadas, não dispõe de uma entrada que se espera num Museu, seja ele antigo ou novo. Torna-se assim essencial criar uma entrada nobre e atractiva. É também agora real a necessidade de facultar o parqueamento de viaturas que no seu tempo eram raras e de garantir boas condições a quem ali trabalha, mas acima de tudo de atrair uma população cada vez tecnologicamente dependente e esteticamente sensível.

Os padrões de gosto estão a alterar-se. Desde a altura em que o edifício existente foi concebido os paradigmas alteraram-se. Objectos bem desenhados e adaptados às necessidades contemporâneas são cada vez mais fáceis de adquirir. Há uma clara evolução na qualidade de desenho de automóveis, de telemóveis, do calçado, etc., sempre respeitando a evolução das necessidades e exigências da população. Os telefones que temos no bolso são quase sempre peças com um desenho cuidado e apelativo, com uma simplicidade sedutora. Também a arquitectura deve respeitar os novos paradigmas para seduzir o visitante. A solução que propomos ambiciona fazê-lo de modo a garantir o sucesso dos objectivos STCP.

A requalificação do edifício às novas necessidades foi abordada de modo cativar novos públicos, alterando o contexto que pretende seduzir residentes, empresas e turistas. O objectivo desta proposta é cativar o público do séc. XXI a visitar o edifício do início do sec. XX, garantindo que tanto o edifício como o museu irão continuar a ter um lugar importante na história da cidade. A história do antigo edifício da Central Eléctrica não terminou e apresentamos aqui um novo capítulo, “escrito” para quem se quer cativar.

Como abordagem optou-se por explorar o contraste realçando as diferenças entre o existente e o que é recente. O contraste entre a antiga Central Eléctrica e as novas intervenções exteriores procuram valorizar o antigo, realçando não apenas uma recuperação do edifício, mas uma clara evolução do mesmo. O diálogo entre o passado e o presente do edifício transpõe para a arquitectura a diferença dialéctica do passado austero e do futuro onde a sensualidade e surpresa reinam. No exterior a relação diária entre os actuais modos de transporte e os antigos eléctricos está expressa na arquitectura. O contraste vem assim valorizar o edifício existente, respeitando-o, mas transportando-o para a actualidade.

Outro claro objectivo da nossa proposta é melhorar significativamente as condições de quem trabalha ou colabora no museu. Neste sentido, e de forma a melhorar espacialmente o interior e as zonas de trabalho, foi necessário efectuar algumas demolições pontuais (respeitando a fachada existente), descritas e justificadas mais abaixo e que se concentram sobretudo na zona da futura entrada no edifício, e na criação de um pátio exterior que servirá as áreas de Operação e Manutenção e que permitirá uma melhoria significativa do edifício tornando-o mais versátil e funcional. Estas alterações também irão criar uma relação mais forte com novos públicos e garantir que aqueles que colaboram com o museu irão poder desfrutar de iluminação natural nos seus locais de trabalho e explorar as excelentes vistas e orientações de algumas zonas do edifício. Prevê-se também o acesso a cadeiras de rodas a todas as instalações sanitárias. 

 

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