--------SONHO PERDIDO

38º 42’43” N  09º22’51” W - MORADIA UNIFAMILIAR

 

 

2007

Vou-vos contar uma história engraçada que deve ser comum. Neste conto participam vários actores mas o “herói” não existe. Existe um cliente, um empreiteiro, um terreno e um arquitecto. A história poderia ser simples; um cliente compra um terreno, o arquitecto faz o projecto, o empreiteiro constrói uma casa e viveram felizes para sempre. Mas esta história é mais interessante e para sempre fica um erro cometido para proteger o bolso.

Recentemente uma amiga telefonou-me a perguntar se poderia dar o meu contacto a um colega que ia construir uma casa. Ele tinha já projecto mas queria uma opinião profissional. “Opinião profissional?”, fiquei curioso. Que história era essa de ter projecto e necessitar opinião profissional. Pensei que necessitaria uma segunda opinião, como quando um médico nos dá uma má notícia.

Falei ao telefone com esse colega, que aqui será designado como “cliente”. Ele enviou-me (ao arquitecto, outra personagem) por email os desenhos que já tinha da casa e ficámos por conversar quando eu os recebesse. Após ver os desenhos e necessitar de algum tempo para os digerir liguei de volta. O cliente comunicou-me que gostaria da uma opinião e que lhe sugerisse algumas melhorias.

Combinei uma “reunião” numa esplanada. A ausência de qualidade do projecto era tanta que necessitei saber toda a história. Era impossível melhorar o que estava desenhado, e quem o teria feito era certamente o vilão da história. Corri então em ajuda deste cliente que não era meu.

Sentados à mesa numa tarde quente de verão ouvi a história com espanto. Contava-me o cliente, “conheci um empreiteiro do Algarve que me disse que oferecia o projecto se eu fizesse a casa por ele. Como tenho pouco dinheiro achei bom negócio e estamos há um mês a desenhar a casa. Já está um pouco diferente, tem mais uma janela aqui, mais uma porta al…” chega, não interessa. O cliente estava obviamente a pecar. A relação entre ele e o empreiteiro era claramente uma de adultério à profissão do arquitecto.

Se se tratasse de medicina, e pedisse a um conhecido que o operasse por ser mais barato, o pecado poderia custar-lhe a vida. Como era uma casa, achou que conseguiria sobreviver.

Com os desenhos em cima da mesa e uma cerveja sobre eles comecei a comentar os desenhos. À nossa frente, uns desenhos de uma casa de 230 m2 no Estoril. “Fui eu que fiz” disse o cliente orgulhoso, “tenho enviado os desenhos para o Algarve e o empreiteiro faz os desenhos em computador”. “Não deviam vender lápis a este homem” pensei.

Não é por acaso que existem cursos superiores e cédulas profissionais. Mas, estas duas personagens achavam que eram capazes de fazer o trabalho sozinhos, pelo menos até ao telefonema a solicitar uma “opinião profissional”. Para o cliente, a arquitectura resumia-se a uma opinião profissional de um desenho existente. Quem não consegue desenhar uma casa?

Os meus comentários aos desenhos foram muito sinceros e, naturalmente desagradáveis. Como era possível alguém estar a pagar por uma casa assim? Esta minha crítica não tinha como base ideologias formais que tento respeitar, mas a notável falta de qualidade do que esta pessoa estava disposta a comprar. “É aqui que queres viver para o resto da tua vida?”, perguntei. “Está assim tão mau?”, respondeu.

Desloquei-me com o cliente ao terreno. Observei a envolvente e a exposição solar, as vistas a explorar e ouvi o cliente falar de si. Curiosamente, o empreiteiro nunca tinha ido ao terreno. 

Interessei-me pelo caso. Em brincadeira perdi uma hora a pensar na casa e desenhei em planta uma possível casa para aquele terreno. A organização era semelhante à desenhada entre o cliente/empreiteiro. Tinha mais uma divisão, um escritório. Numa breve comparação, os quartos estavam melhores, a casa tinha mais luz, estava melhor organizada e tinha espaços mais generosos e interessantes. Uma grande diferença se notava, dos 230 m2 restavam 195 m2 agora bem organizados. Mais casa em menos espaço.

Aconselhei o cliente a contratar um arquitecto, do mesmo modo que se aconselha alguém a ir ao médico. “Não tenho dinheiro” foi a resposta. Mostrei-lhe o meu estudo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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