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2007
Vou-vos contar uma história
engraçada que deve ser comum. Neste conto participam vários
actores mas o “herói” não existe. Existe um cliente, um
empreiteiro, um terreno e um arquitecto. A história poderia ser
simples; um cliente compra um terreno, o arquitecto faz o
projecto, o empreiteiro constrói uma casa e viveram felizes para
sempre. Mas esta história é mais interessante e para sempre fica
um erro cometido para proteger o bolso.
Recentemente uma amiga
telefonou-me a perguntar se poderia dar o meu contacto a um
colega que ia construir uma casa. Ele tinha já projecto mas
queria uma opinião profissional. “Opinião profissional?”, fiquei
curioso. Que história era essa de ter projecto e necessitar
opinião profissional. Pensei que necessitaria uma segunda
opinião, como quando um médico nos dá uma má notícia.
Falei ao telefone com esse
colega, que aqui será designado como “cliente”. Ele enviou-me
(ao arquitecto, outra personagem) por email os desenhos que já
tinha da casa e ficámos por conversar quando eu os recebesse.
Após ver os desenhos e necessitar de algum tempo para os digerir
liguei de volta. O cliente comunicou-me que gostaria da uma
opinião e que lhe sugerisse algumas melhorias.
Combinei uma “reunião” numa
esplanada. A ausência de qualidade do projecto era tanta que
necessitei saber toda a história. Era impossível melhorar o que
estava desenhado, e quem o teria feito era certamente o vilão da
história. Corri então em ajuda deste cliente que não era meu.
Sentados à mesa numa tarde
quente de verão ouvi a história com espanto. Contava-me o
cliente, “conheci um empreiteiro do Algarve que me disse que
oferecia o projecto se eu fizesse a casa por ele. Como tenho
pouco dinheiro achei bom negócio e estamos há um mês a desenhar
a casa. Já está um pouco diferente, tem mais uma janela aqui,
mais uma porta al…” chega, não interessa. O cliente estava
obviamente a pecar. A relação entre ele e o empreiteiro era
claramente uma de adultério à profissão do arquitecto.
Se se tratasse de medicina, e
pedisse a um conhecido que o operasse por ser mais barato, o
pecado poderia custar-lhe a vida. Como era uma casa, achou que
conseguiria sobreviver.
Com os desenhos em cima da
mesa e uma cerveja sobre eles comecei a comentar os desenhos. À
nossa frente, uns desenhos de uma casa de 230 m2 no
Estoril. “Fui eu que fiz” disse o cliente orgulhoso, “tenho
enviado os desenhos para o Algarve e o empreiteiro faz os
desenhos em computador”. “Não deviam vender lápis a este homem”
pensei.
Não é por acaso que existem
cursos superiores e cédulas profissionais. Mas, estas duas
personagens achavam que eram capazes de fazer o trabalho
sozinhos, pelo menos até ao telefonema a solicitar uma “opinião
profissional”. Para o cliente, a arquitectura resumia-se a uma
opinião profissional de um desenho existente. Quem não consegue
desenhar uma casa?
Os meus comentários aos
desenhos foram muito sinceros e, naturalmente desagradáveis.
Como era possível alguém estar a pagar por uma casa assim? Esta
minha crítica não tinha como base ideologias formais que tento
respeitar, mas a notável falta de qualidade do que esta pessoa
estava disposta a comprar. “É aqui que queres viver para o resto
da tua vida?”, perguntei. “Está assim tão mau?”, respondeu.
Desloquei-me com o cliente ao
terreno. Observei a envolvente e a exposição solar, as vistas a
explorar e ouvi o cliente falar de si. Curiosamente, o
empreiteiro nunca tinha ido ao terreno.
Interessei-me pelo caso. Em
brincadeira perdi uma hora a pensar na casa e desenhei em planta
uma possível casa para aquele terreno. A organização era
semelhante à desenhada entre o cliente/empreiteiro. Tinha mais
uma divisão, um escritório. Numa breve comparação, os quartos
estavam melhores, a casa tinha mais luz, estava melhor
organizada e tinha espaços mais generosos e interessantes. Uma
grande diferença se notava, dos 230 m2 restavam 195 m2
agora bem organizados. Mais casa em menos espaço.
Aconselhei o
cliente a contratar um arquitecto, do mesmo modo que se
aconselha alguém a ir ao médico. “Não tenho dinheiro” foi a
resposta. Mostrei-lhe o meu estudo.
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