SCULP

piscinas municipais da marinha grande

 

arquitectura – 38N9W
engenharia – CENTRAL DE PROJECTOS
arquitectura paisagística – GREENARQ

 

 

“Não te esqueças da touca”, diz a mãe enquanto o rapaz fecha o saco. A ida às piscinas está cheia de rituais. Quase todos nós numa ou outra altura passámos por essas rotinas que nos ensinavam a nadar, ensinavam a nadar melhor, preparavam-nos para competições. Estes rituais são quase sempre iniciados com a preparação do saco onde encontramos peças comuns a todos os nadadores; toalha, champô, chinelos, fato de banho, óculos de natação e a touca.
A mãe leva o rapaz até à piscina municipal, o pai vai lá ter mais tarde. O entusiasmo é muito. “Mãe, hoje vou para a piscina grande”, diz o rapaz que já sabe nadar e vai ter com os amigos. Durante 45 minutos vão juntos percorrer a piscina de um lado para o outro. A senhora chega ao complexo com o rapaz pela mão. Entra e cumprimenta de imediato a senhora da recepção que já os conhece.
O rapaz passa à direita pela cancela de controlo e desloca-se para o balneário sozinho. A mãe sobe as escadas e segue na direcção das bancadas. O percurso do rapaz é acompanhado por janelas que iluminam o corredor. A mãe, no andar de cima segue também por um corredor iluminado com acesso a terraços exteriores. Entre os terraços existem galerias que comunicam com o piso inferior. A mãe olha para baixo e vê o filho que olha pela janela para o jardim. “Não te esqueças da touca”, diz a mãe. O rapaz olha para cima, acena à mãe e entra no balneário.
Orgulhosa a senhora senta-se na bancada e espera o filho. Nas pistas nadam jovens. Na piscina pequena ao fundo vê crianças, algumas ainda com braçadeiras. Lembra-se da antiga rotina, quando o rapaz ainda usava a piscina pequena, hoje ele diz orgulhoso “vou para a piscina grande”. A rotina anterior era diferente, ela ia com ele ao balneário onde o ajudava a preparar-se. Ficava depois no café a vê-lo pela grande janela. Lia o jornal enquanto, entre parágrafos, olhava para o filho. Sempre que ele a via acenava feliz. A rotina hoje é diferente. “O meu filho está a crescer depressa” pensa ela.
O pai do rapaz chega mais tarde. Ele entra por uma porta lateral que dá acesso ao ginásio. É cumprimentado pela recepcionista e segue para o balneário. Depois de passar pela secretaria pára em frente à grande janela interior que permite ver a piscina e as bancadas. Acena à esposa que está na bancada e ela acena de volta. O senhor observa o filho e espera pacientemente que ele pare de nadar para o ver. O ritual é de todos e o rapaz sabe que o pai vai aparecer naquela janela e quando pára acena e sorri.
O senhor vai para o balneário e equipa-se. Trás uma raquete e combinou com um amigo um jogo de squash. Juntos entram na sala branca com linhas vermelhas. No piso de cima está o balneário das senhoras. Algumas delas atravessam a galeria que comunica com o piso da entrada com uma escada e elevador. Ficam alguns momentos no corredor entre as janelas para a sala de squash, piscina e salas de actividades. Após alguns momentos de verem a bola bater nas paredes descem e entram nas salas onde têm agendado o exercício diário. Ambas as salas têm janelas directas para o exterior. A maior beneficia ainda da relação entre as piscinas e o interior.
Todo o espaço transpira desporto. Uns nadam, outros saltam, outros correm atrás da bola. Tudo está ligado, todos se podem ver. O complexo incentiva ao desporto, à actividade, à saúde física.
O senhor joga squash durante algum tempo. Termina ao mesmo tempo que o filho e quando regressa ao balneário vê que o filho o espera junto à janela. “Nadei na piscina grande!” diz ao pai que sorri e segue para o balneário. O rapaz vai ter com os amigos que já estão no balneário. A senhora enquanto espera vai para um dos terraços ver o entardecer e olhar para os jardins. É uma mistura de cores interessante, a do céu, e a vegetação em volta. Tudo se reflecte nos azulejos azuis dos terraços criando cores que se alteram. Com o amarelo do entardecer os azulejos azuis parecem verdes e a cor mistura-se com a superfície vegetal que encosta ao edifício.
Saem finalmente na direcção das recepções. O senhor segue para a entrada das piscinas enquanto a senhora espera o rapaz que aparece cheio de energia. “Não te esqueceste da toca?” pergunta a mãe. Prontos, atravessam o bar e sentam-se na esplanada que existe na frente do edifício. O senhor vem caminhando pela parte Norte na direcção da esplanada. Ao longo do caminho vê as pessoas que parecem dançar na sala de fitness. Mais adiante consegue ver as piscinas num grande janelão.
Na janela seguinte ainda alguém trabalha na administração. Por cima existe um corte na cobertura que faz um terraço que comunica com a sala de reuniões da administração. Algumas pessoas estão junto à varanda a conversar. Pensa que será alguma reunião informal ao ar-livre. Pensa para si que os contextos de trabalho se estão a alterar, as pessoas querem cada vez mais espaços de qualidade e versáteis.
Contorna a esquina e chega à esplanada. “Papá, nadei na piscina grande” diz o rapaz. “Eu vi” diz o senhor. “E não me esqueci da touca!” termina o rapaz.